Toda vez que alguém assiste a um filme ou a uma série, é comum imaginar que o resultado depende apenas de uma boa câmera, de um roteiro bem escrito ou de grandes atores. Mas quem vive o audiovisual sabe que existe um elemento ainda mais importante: as pessoas.
A primeira temporada de “Pinta: Um Guia Arroxado” nasceu graças a uma política pública de incentivo à cultura. Sem o apoio da Lei Paulo Gustavo, provavelmente essa história nunca teria saído do papel. O investimento público não financiou apenas uma obra audiovisual. Ele movimentou profissionais, fortaleceu empresas locais, gerou oportunidades de formação e permitiu que uma história genuinamente potiguar chegasse às telas.
O desafio, no entanto, era enorme.
O edital previa a entrega de uma websérie com aproximadamente 30 minutos de duração. Nossa equipe decidiu sonhar mais alto. Produzimos uma temporada completa, com seis episódios e cerca de 110 minutos, multiplicando o alcance da proposta original.
Isso exigiu muito mais do que recursos financeiros. Exigiu coragem, planejamento e, principalmente, uma grande rede de colaboração.
As gravações aconteceram em apenas seis diárias, praticamente uma para cada episódio, com jornadas intensas de até 12 horas. Grande parte das locações era externa, exigindo deslocamentos, logística complexa e adaptações constantes. Em muitos momentos, parecia impossível cumprir o cronograma. Mas era justamente nessas horas que a força das parcerias fazia toda a diferença.

Um exemplo foi a parceria com a MarAzul Turismo, que disponibilizou um micro-ônibus para o transporte diário da equipe e ofereceu apoio fundamental nas gravações realizadas no litoral Norte. Durante as cenas nas dunas do Lavacu, dois buggies foram colocados à disposição da produção: um utilizado nas filmagens e outro dedicado ao deslocamento da equipe técnica e dos equipamentos. Em uma região onde o acesso depende de veículos autorizados e condutores experientes, esse suporte foi decisivo para que as gravações acontecessem com segurança.
Os bastidores também ganharam vida graças ao olhar de parceiros que acreditaram no projeto. A equipe da Sunset, liderada por Sam, registrou momentos inesquecíveis do making of, captando entrevistas, depoimentos e cenas espontâneas que revelavam uma produção tão divertida quanto a própria série. Entre uma gravação e outra, o protagonista Áureo Deni transformava qualquer intervalo em espetáculo, improvisando narrações esportivas, imitações e momentos de humor que arrancavam risadas de toda a equipe.
Além do making of tradicional, conteúdos produzidos em tempo real abasteceram as redes sociais durante todo o período de gravação. Stories, vídeos curtos e registros de bastidores aproximaram o público da produção e alcançaram milhares de visualizações, mostrando que uma série também pode ser construída junto com sua comunidade desde o primeiro dia de filmagem.
Essa rede de apoio continuou crescendo na pós-produção. Novos colaboradores chegaram para auxiliar em processos administrativos, documentação junto à ANCINE, organização de materiais e etapas técnicas indispensáveis para a finalização da obra. Estudantes do curso de Audiovisual da UFRN também participaram da experiência, acompanhando diferentes fases da produção e vivenciando, na prática, o funcionamento de um set profissional.
O ponto alto dessa caminhada foi a pré-estreia realizada em uma sala de cinema, antes do lançamento oficial no YouTube. Mais do que uma exibição, aquele momento simbolizou a realização de um sonho coletivo. Elenco, equipe técnica, familiares, parceiros e convidados compartilharam juntos a emoção de assistir à obra pela primeira vez na tela grande.
A exibição reuniu artistas, professores, representantes da sociedade civil, autoridades políticas e pessoas que acompanharam de perto a construção do projeto. Muitos conheceram ali, pela primeira vez, a força da cultura periférica retratada pela série. Foi um encontro marcado por emoção, reconhecimento e pertencimento.
Ao olhar para trás, fica uma certeza: nenhuma produção audiovisual é construída por uma única pessoa. Ela nasce da confiança, do trabalho coletivo e da disposição de muita gente em acreditar em uma mesma ideia.
Alguns contribuíram com equipamentos. Outros ofereceram transporte, conhecimento, tempo, experiência ou simplesmente entusiasmo. Muitos participaram movidos pelo desejo de aprender, experimentar e fortalecer o audiovisual potiguar. Hoje, vários desses colaboradores seguem trabalhando conosco em novos projetos, demonstrando que as conexões criadas durante uma produção podem se transformar em parcerias duradouras.
O maior legado dessa experiência talvez seja justamente esse. O cinema não é feito apenas de câmeras, roteiros e iluminação. Ele é feito de encontros. E quando uma comunidade decide caminhar na mesma direção, ela prova que nenhum sonho é grande demais para ser realizado.
Porque, no fim das contas, ninguém faz cinema sozinho.
