Poucas obras conseguem ultrapassar a tela e provocar mudanças reais na forma como uma sociedade enxerga a si mesma. A primeira temporada de “Pinta: Um Guia Arroxado” alcançou exatamente esse feito ao transformar em protagonista um personagem que, por muitos anos, foi alvo de preconceito em Natal.
O “Pinta” representa um arquétipo bastante conhecido da juventude periférica potiguar. Seu jeito de falar, de se vestir, o óculos Juliete, a bermuda Ciclone, o boné rebaixado, os acessórios e a identidade construída nas ruas fizeram com que muitos desses jovens fossem, durante anos, vítimas de discriminação. O episódio que ficou conhecido como “rolê dos pintas” revelou uma realidade dura: muitos eram impedidos de entrar em shoppings simplesmente pela aparência.
Anos depois, a história deu uma volta simbólica. O mesmo personagem que antes era visto com desconfiança passou a ocupar o centro das atenções em uma sala de cinema localizada justamente dentro de um shopping. O que antes era exclusão transformou-se em reconhecimento. O jovem periférico deixou de ser tratado como suspeito para ser aplaudido como protagonista de uma obra audiovisual potiguar, diante de uma plateia lotada. Mais do que uma estreia, aquele momento representou uma reparação simbólica e um marco para a cultura local.
O impacto da série também ultrapassou o entretenimento e chegou às salas de aula. O que inicialmente seria apenas uma contrapartida prevista pela Lei Paulo Gustavo tornou-se um dos maiores movimentos de circulação audiovisual em escolas públicas do Rio Grande do Norte. A série foi exibida em mais de dez instituições de ensino, incluindo diferentes campi do IFRN, como Natal Central e São Gonçalo do Amarante, sempre com auditórios lotados nos turnos da manhã e da tarde.
Professores passaram a utilizar os episódios como ferramenta pedagógica em diferentes disciplinas. Nas aulas de Língua Portuguesa e Linguística, a produção serviu para discutir a variação linguística, os sotaques e os dialetos regionais, valorizando a forma de falar do povo potiguar. Em Geografia e História, os estudantes conheceram patrimônios e territórios retratados nas locações da série. Já nas aulas de Arte e Audiovisual, a obra tornou-se exemplo prático de produção cinematográfica realizada no próprio estado, aproximando os alunos do universo do cinema e da televisão.
A repercussão alcançou outro feito histórico quando “Pinta: Um Guia Arroxado” tornou-se a primeira série independente produzida no Rio Grande do Norte a ser exibida em televisão aberta, em horário de grande audiência, pela Inter TV Cabugi, afiliada da TV Globo, dentro do programa Resenha RN, nas tardes de sábado, antecedendo a programação nacional da emissora. A exibição foi acompanhada por entrevistas especiais com o protagonista Áureo Deni e com o diretor, ator e preparador de elenco Kaiony Venâncio, integrante do elenco do longa-metragem O Agente Secreto, produção brasileira premiada no Festival de Cannes e posteriormente indicada a representar o Brasil na disputa pelo Oscar.
Como diretor da série, tenho a satisfação de afirmar que o maior prêmio conquistado por este projeto não está apenas na audiência, nos festivais ou na televisão. Está em ver um jovem negro, periférico e orgulhoso de sua identidade ocupar um espaço que durante muito tempo lhe foi negado. O “Pinta” deixou de ser um estereótipo para se tornar símbolo de pertencimento, representatividade e valorização da cultura potiguar. E essa talvez seja a maior conquista que uma obra audiovisual pode alcançar.
